VIOLÊNCIA CONTRA MULHER E RELIGIÃO
DOI:
https://doi.org/10.22481/rsc.v19i2.18141Resumo
A violência contra a mulher é um fenômeno estrutural que atravessa diferentes esferas da sociedade, incluindo a religiosa. Embora a fé possa ser fonte de acolhimento e resistência, ela também pode funcionar como instrumento de controle e legitimação da desigualdade de gênero. Segundo Guerra1, os discursos religiosos tendem a legitimar a dominação masculina, contribuindo para o controle dos comportamentos femininos e a naturalização da violência doméstica. Essa perspectiva é reforçada por Souza e Reimer2, que destacam o uso da Bíblia como ferramenta de dominação, especialmente quando interpretada de forma literal e descontextualizada.
A religião, nesse sentido, não apenas reproduz normas sociais opressoras, mas também as reveste de autoridade divina. Como aponta Martins Sirelli e De Oliveira de Sousa3, a sacralização da submissão feminina é uma das formas mais eficazes de perpetuar a violência simbólica e física contra as mulheres. Essa lógica se manifesta em práticas como a exclusão de mulheres de cargos de liderança religiosa, a culpabilização da vítima e o aconselhamento para que suportem agressões em nome da fé. Segundo o relatório visível e invisível: a vitimização de mulheres no Brasil, destaca dentre as entrevistadas, 42,7% das mulheres que se identificaram como evangélicas sofreram violência ao longo da vida, contra 35% das que se identificaram como católicas4.
A violência doméstica é uma das formas mais recorrentes de agressão contra mulheres, e muitas vezes ocorre em ambientes onde a religião é referência moral. Em alguns casos, líderes religiosos aconselham mulheres a manterem o casamento mesmo diante de abusos, reforçando a ideia de que o sofrimento é parte da missão feminina5. Santana e Silva6 e Miranda10 destacam a omissão das lideranças religiosas diante da violência doméstica contribuindo para o silenciamento das vítimas e a perpetuação do ciclo de agressão.
Essa postura é especialmente problemática em comunidades onde a religião é a principal fonte de apoio emocional e social. Como aponta Santos7, em contextos de vulnerabilidade, a fé pode ser tanto refúgio quanto prisão, dependendo da forma como é mediada pelas lideranças. Por isso, é fundamental que as instituições religiosas assumam um papel ativo na prevenção e no enfrentamento da violência.
Diante do contexto anteriormente citado, nos faz refletir sobre a análise da violência contra a mulher no contexto religioso que exige uma abordagem interseccional, que considere raça, classe, orientação sexual e identidade de gênero. Segundo Crenshaw8, a interseccionalidade permite compreender como diferentes formas de opressão se articulam e se reforçam mutuamente. No caso das mulheres negras e trans, por exemplo, a violência religiosa se soma à exclusão social e à discriminação institucional.
Essa perspectiva é essencial para construir políticas públicas e práticas religiosas mais inclusivas. Como destaca Franco e Dias9, que a interseccionalidade é uma ferramenta indispensável para pensar em direitos humanos quando se fala em etnia, classe, raça e gênero dentro das comunidades de fé. Ela permite reconhecer que nem todas as mulheres vivem a violência da mesma forma, e que a resposta institucional precisa ser sensível a essas diferenças.
Além disso, considero que é fundamental que as políticas públicas dialoguem com as instituições religiosas, reconhecendo seu papel na formação de valores e na mobilização comunitária. A articulação entre Estado, sociedade civil e comunidades de fé pode fortalecer redes de proteção e ampliar o alcance das ações de enfrentamento à violência.
Observo que é impossível ignorar o peso que a religião tem na vida cotidiana, especialmente em regiões mais vulneráveis. Em muitos casos, ela é a única referência de apoio emocional, espiritual e social. Por isso, é urgente que as lideranças religiosas assumam a responsabilidade de promover uma cultura de paz, respeito e equidade. A violência contra a mulher não é apenas um problema jurídico ou policial, é uma questão ética, espiritual e civilizatória. A fé, quando bem orientada, pode ser uma força poderosa de transformação. Mas quando usada para justificar abusos, torna-se cúmplice do sofrimento.
Afirmo que é preciso coragem para romper com tradições que oprimem, além de sabedoria e estratégias para construir novas formas de viver a espiritualidade. Meu desejo é que todas as igrejas, templos e comunidades de fé sejam espaços de acolhimento, não de silenciamento. Que a religião seja ponte, não prisão.
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Referências
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