Sodomia Faeminarum: a Inquisição e a alforria do lesbianismo no mundo português, 1646

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DOI:

https://doi.org/10.22481/politeia.v20i1.8999

Resumo

A história da homossexualidade em Portugal confirma a mesma tendência observada no resto do mundo: o lesbianismo sempre foi muito menos perseguido do que a homossexualidade masculina. Nesse artigo analisamos um documento inédito de 1646, onde os Inquisidores de Lisboa, após consulta do Tribunal do Santo Ofício de Goa, discutem detalhadamente, baseados em diversificada bibliografia, a opinião dos principais teólogos morais da cristandade sobre o tema. Apesar de manifestarem posicionamentos antagônicos, prevaleceu a exclusão da “sodomia faeminarum” da condição de “sodomia perfeita”, deixando a partir de então o lesbianismo de ser crime punível com a fogueira, passando sua perseguição, mais branda, à justiça secular.

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Biografia do Autor

Luiz Mott, Universidade Federal da Bahia (UFBA)

Professor Titular aposentado da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Doutorado em Antropologia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Pós-doutorado no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Portugal

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Publicado

2021-08-16

Como Citar

MOTT, Luiz. Sodomia Faeminarum: a Inquisição e a alforria do lesbianismo no mundo português, 1646. Politeia - História e Sociedade, [S. l.], v. 20, n. 1, p. 45–66, 2021. DOI: 10.22481/politeia.v20i1.8999. Disponível em: https://periodicos2.uesb.br/politeia/article/view/8999. Acesso em: 21 maio. 2026.