Apresentação da Revista de Literatura Negra - Gongolo

2026-05-14

Revista de Literatura Negra - Gongolo tem como objetivo constituir-se em um espaço para publicação exclusiva de investigações epistemológicas, teóricas, metodológicas e historiográficas, sobre a literatura negra. A REVISTA concederá especial atenção ao recebimento de propostas que invistam em leituras críticas de autores/as e obras da literatura negra brasileira e outros locais da afrodiáspora, atentas à necessidade de pensá-las a partir de um arcabouço teórico dessemelhante ao que se canonizou como teoria e crítica da literatura, como também, por trabalhos que discutam o próprio campo da crítica e da teoria, a partir da cultura e da experiência negras, ao mesmo tempo, que se interessa por trabalhos que pensem o ensino de literatura negra e/ou africana, a partir das leis 10.639/2003 e 11.645/2008 (compreendendo, neste caso, a articulação dos saberes africanos e negro-brasileiros com os conhecimentos dos povos originários no campo das Letras). Além do exposto, a REVISTA publicará textos literários que dialoguem como tema de cada número deste periódico. A publicação será semestral, e seu conteúdo destina-se ao público acadêmico e à sociedade como um todo. A submissão deve atender às regras de normatização da revista e ao tema específico da chamada.

Gongolo, no contexto brasileiro, é o embaraço e desembaraço das linhas periféricas com as próprias linhas periféricas e outras supostamente “centrais”. Entanto, antes disso, Gongolo remete a “seres artrópodes da classe dos diplópodes; ou seja, ao piolho-de-cobra ou embuá” que, com seu corpo cilíndrico, se enrolam e se desenrolam, se estiram e avançam, recuam como estratégia de lembrar de si, tornam-se espirais infinitas, transformam-se em outros organismos, em matéria orgânica, para novamente serem raízes, folhas, galhos, troncos, terra, adubo e sementes.

Assim como os gongolos, quando desenrolamos as linhas das palavras, avistamos uma genealogia etimológica bantu que atravessa alguns idiomas desse grupo linguístico com sentidos e imagens símiles que remetem à circularidade espiralar da kodya e do cosmograma bakongos plasmados na capoeira, no xirê do candomblé, nas rodas de conversa e de samba, ou seja, nessas agências históricas de letramentos literários negros. Mbòngòlò como gongo aparece na língua changana, falada em Moçambique; Mas também está presente no kikongo, NkongoloNgongolo, remetendo a arco-íris ou serpente arco-íris, nomeando ainda uma importante divindade (nkisi) ligada à riqueza, ao equilíbrio, à continuidade no Candomblé Congo-Angola, de que Hongolo e Angorô são variações linguísticas no contexto brasileiro. Ainda no kikongo, bem como agora também na língua Kimbundu, aparece a forma kingolongolo usado para nomenclaturar centopeia. Essas palavras atravessaram a Kalunga (um dos sentidos de mar no universo linguístico bantu kimbundu e kikongo), sublinhando histórias de lutas e reinvenções da memória, instalando-se no corpo e no tempo exusíacos da memória.

O nome desta revista dialoga com um veio da memória negra. Gongolo é um termo que se estende, como se pôde ver, a mais de um território e que foi (em certos espaços ainda é) muito utilizado no Brasil por empinadores de arraias (artefatos de empinação, aparentados às pipas) , feitas com flechas de bambu coladas em papel de seda ou outros tipos, que se atam a linhas de costura de variadas espessuras e, em lugares como a região metropolitana de Salvador, especialmente suas periferias, temperadas com cola e vidro moído (o que em outros lugares do Brasil é chamado por nomes distintos, a exemplo de cerol misturado ao mesmo pó de vidro). No caso das arraias, o gongolo é muito utilizado por quem está aparentemente “destemperado”, ou seja, sem armas cortantes, cuja única forma de sobrevivência é engongolar-se na linha de seus próximos, a ficar mais forte entre os seus pares, ou à linha de seus adversários e “puxar pra mão” o material alheio, que assim é revisto e muitas vezes reconhecido como algo do próprio empinador, que se havia esquecido ou tivera furtada sua linha em embate anterior. Às vezes é preciso apenar dar o jogo, afrouxar ou arrastar a linhas; outras tantas é preciso amarrá-las a uma pedra, armar um barandão ou barangandão, contar uma outra história, propor novas reflexões.

Revista Gongolo pretende nesse painel de saberes e memórias ser essa arraia que dança, ginga, atravessa os espaços a que pertence, e que dialoga criticamente com outras linhas em espirais, em circunvoluções da memória, no cuidado audacioso das lutas, das pegadas, dos enfrentamentos, em rinhas nos céus da memória e dos saberes, em que saber e saber-não-saber importam como estratégias de reconhecimentos e refundações. No corpo do empinador, assim como de escritores/as, cientistas e mestres/as populares, há movimentos variados de ancestralidades a serem ratificados ou ainda salientados, como também há movimentos provenientes dessa memória a serem inaugurados. Convidamos o/a leitor/a  a essas linhas do pensamento.