Chamada de publicação para o Dossiê temático: Professores(as) iniciantes: desafios da inserção, políticas, programas e práticas de indução profissional

2026-05-21

A inserção profissional é por nós compreendida, em consonância com o pensamento de Marcelo Garcia (1999), como um conceito que se refere à entrada na vida profissional docente, ao ingresso na carreira, ao processo ou fase do “aprender a ensinar”. Pela ótica de Cruz, Farias e Hobold (2020, p. 3) trata-se de um período da vida profissional pelo qual todos nós passamos, alguns de maneira mais tranquila, outros nem tanto; um período de travessia que marca a transição da condição de estudante a professor. Esse período é caracterizado, ainda, por aprendizagens intensas, pois é durante os primeiros anos “que o professor busca incorporar, compreender e se integrar de maneira mais densa à cultura docente, a cultura escolar e se familiarizar com os códigos e normas da profissão”.
Autores como Huberman (2000) indicam que o início da docência é marcado por sentimentos paradoxais, tais como: “choque de realidade”, entusiasmo com as primeiras turmas,
sentimento de alegria, “sobrevivência” e descoberta. A expressão “choque de realidade”, cunhada por Veenman (1984), é utilizada para se referir às expectativas que o iniciante possui quanto à sua atuação docente e as forças socializadoras do seu ambiente de atuação profissional. O sentimento de “descoberta” se manifesta no(a) professor(a) iniciante pelo caráter de experimentação, pela responsabilidade de ter sua própria turma e/ou, por sentir-se colega de uma equipe profissional (Huberman, 2000). Trata-se, portanto, de um período crucial para os professores(as) e sua (des)continuidade no magistério. Cruz; Faria; Hobold (2020) mencionam, ainda, que a inserção profissional na docência nem sempre ocorre de forma tranquila, seja devido ao fato de ser um período tenso diante do novo papel social que o(a) professor(a) que está iniciando-se na profissão vivencia, ou mesmo pela ausência, insuficiência ou precariedade de apoio para que esses profissionais possam encarar as dificuldades pedagógicas, científicas, burocráticas sociais e emocionais do cotidiano de exercício profissional.
Ressaltamos que as temáticas da formação, inserção e desenvolvimento profissional de professores iniciantes que atuam na Educação Básica, sobretudo, vêm se consolidando, no Brasil, na última década, como emergente na agenda de pesquisadores do campo educacional. Esse interesse se deu, especialmente, pelos resultados de estudos internacionais (Carlos Marcelo, 1999, 2010; Carlos Marcelo, Vaillant, 2012; Vaillant, 2009; Day, 2001; Ávalos, 2012; Beca, Boerr, 2020) que apontam um conjunto de especificidades do início da carreira docente, bem como dilemas, dificuldades e desafios na transição de estudantes para a condição de professores já, há aproximadamente, três décadas.
Almeida et. al. (2020) realizaram uma revisão integrativa da produção acadêmica sobre o professor iniciante nos anais das Reuniões Nacionais da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (ANPEd), no catálogo de Teses e Dissertações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e nos artigos disponíveis no website do SciELO e do Educ@, no recorte temporal de 2009 a 2019. O objetivo desse estudo foi identificar se e como as produções têm indicado recomendações para promover a inserção profissional de docentes no início da carreira. Almeida et. al. (2020) destacam que no Brasil, após o ano de 2014, houve um aumento considerável de estudos e publicações sobre o tema.
As pesquisadoras explicitam, ainda, o aumento de trabalhos com foco nas ações formativas de apoio e acompanhamento do professor ingressante na profissão docente. Entretanto, os resultados dessa revisão indicam, também, a persistência de lacunas nas pesquisas e, portanto, a necessidade de aperfeiçoamento dos estudos, na perspectiva de que os
mesmos possam trazer uma contribuição efetiva na constituição do campo de pesquisas sobre professores iniciantes e, assim, “[...] gerar um conhecimento mais abrangente e consistente permitindo indicar caminhos, ações e práticas que favoreçam a inserção profissional dos docentes” (Almeida et. al, 2020, p. 1). Em outro prisma, os estudos de André (2012); Cruz, Farias, Hobold (2020); Nono (2011); Passos et. al. (2020); Mariano (2006); Marin, Giovanni, Guarnieri (2009), Lima (2004); entre outros, advertem para a quase inexistência de políticas e programas voltados aos professores iniciantes no Brasil. Ou seja, embora os estudos e as pesquisas sobre os professores iniciantes tenham avançado no país, por meio dos programas de pós-graduação stricto sensu, constata-se a incipiência de ações formativas direcionadas ao período de inserção profissional na carreira docente. Experiências isoladas vem sendo realizadas por pesquisadores e universidades sensíveis à temática, além de algumas poucas ações e programas realizados por secretarias de educação do país, conforme constataram André (2012) e Cruz, Farias, Hobold (2020). Assim, nos interessa, neste dossiê, compreender e socializar experiências de programas e ações institucionais e de pesquisas promovidas por instituições de ensino superior, secretarias de educação e órgãos ligados à formação de professores que focalizem a indução profissional como elemento necessário para dirimir as dificuldades vivenciadas pelos docentes iniciantes. Além disso, interessa-nos divulgar resultados de pesquisas que deem visibilidade à políticas e programas de apoio à inserção profissional no cenário internacional; concepções, políticas e propostas de indução profissional; necessidades formativas e condições de trabalho de professores iniciantes; experiências de pesquisa e formação com professores em situação de inserção profissional; desafios, dificuldades e sentimentos que demarcam a atuação do professor(a) ao fazer a passagem da condição de estudante para professor(a). Os elementos dispostos corroboram sobre o desejo dos organizadores de que esse dossiê possa agrupar estudos delineados por pesquisadores(as) educacionais envolvidos e sensibilizados com as questões que afligem o início da docência e que se agrupam em torno da defesa da indução profissional, entendida como acompanhamento sistemático e intencional do professor(a) iniciante e que deve acontecer por meio de políticas públicas educacionais, o que pode favorecer uma prática docente mais situada, contextualizada com as demandas reais enfrenadas no cotidiano, sobretudo, da escola pública. Interessa-nos, ainda, agrupar os resultados de investigações que decorram da compreensão de que o debate sobre a indução profissional não pode estar dissociado das condições de trabalho, salariais e estruturais que, historicamente, assolam o trabalho docente, levando à sua precarização.
Portanto, a proposta do dossiê mostra-se relevante do ponto de vista social e acadêmico, contribuindo para que a Revista de Estudos em Educação e Diversidade cumpra seu papel e missão acadêmica enquanto canal de socialização do conhecimento científico, socialmente referenciado.

Organização: Jefferson da Silva Moreira (UEFS), Giseli Barreto da Cruz (UFRJ) e Maria Mercedes Jiménez-Narváez (Universidad de Antioquia - Colômbia)

 

Prazo para submissão: 30 de setembro de 2026.