Entre o ensino e os fármacos: medicalização do trabalho docente na contemporaneidade

Autores

DOI:

https://doi.org/10.22481/reed.v6i13.18133

Palavras-chave:

Adoecimento docente, Medicalização, Sofrimento psíquico, Trabalho docente, Políticas educacionais

Resumo

Este artigo discute o crescente adoecimento docente e o consequente uso de psicofármacos como estratégia de enfrentamento ao esgotamento profissional. Parte-se da premissa de que a medicalização do sofrimento psíquico (originado por condições laborais precárias) converte um problema estrutural e coletivo em uma questão de saúde individual, contribuindo para a sua despolitização. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, de caráter exploratório realizada com 14 docentes, sendo 10 da Educação Básica e 04 da Educação Superior, tendo como instrumento uma entrevista. Os dados construídos indicam que a sobrecarga de trabalho, expressa no acúmulo de turmas, atividades administrativas e pressão por produtividade acadêmica, configura um ambiente de estresse crônico que desencadeia sintomas como ansiedade e insônia. Diante desse cenário, os docentes recorrem a antidepressivos e ansiolíticos, compreendendo a medicalização como um recurso necessário para a continuidade do exercício profissional. Conclui-se que, embora o uso de medicamentos possa ser uma resposta imediata ao sofrimento, ele também opera como um mecanismo de silenciamento, contribuindo para a manutenção de um sistema educacional adoecido. O estudo enfatiza a urgência de políticas públicas voltadas à melhoria das condições de trabalho docente, à redução da carga horária e à valorização profissional, como caminhos fundamentais para a desmedicalização e a humanização do exercício docente.

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Biografia do Autor

Taisa Souza Cruz Silva, Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia

Mestranda em Educação e Pedagoga pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). Integrante do Grupo de Pesquisa e Estudos Pedagógicos (GPEP/CNPq).

Ismênia da Silva Vieira , Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia

Doutoranda e Mestre em Educação pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). Integrante do Grupo de Pesquisa e Estudos Pedagógicos (GPEP/CNPq).

Flávia dos Santos da Silva de Oliveira , Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia

Doutoranda e Mestre em Educação pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). Integrante do Grupo de Pesquisa e Estudos Pedagógicos (GPEP/CNPq).

Rita de Cássia Souza Nascimento Ferraz, Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia

Doutora  em  Psicologia  pela  Universidade  Federal  da  Bahia  (UFBA).  Professora  Plena  da  Universidade Estadual   do   Sudoeste   da   Bahia-Itapetinga   (UESB);   Professora   do   Programa   de   Pós-graduação   em Educação/UESB,    Coordenadora    do    Centro    de Pesquisa    em    Estudos    Pedagógicos (CEPEP/UESB).

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Publicado

2025-10-14

Como Citar

SILVA, Taisa Souza Cruz; VIEIRA , Ismênia da Silva; OLIVEIRA , Flávia dos Santos da Silva de; FERRAZ, Rita de Cássia Souza Nascimento. Entre o ensino e os fármacos: medicalização do trabalho docente na contemporaneidade. Revista de Estudos em Educação e Diversidade - REED, [S. l.], v. 6, n. 13, p. 1–18, 2025. DOI: 10.22481/reed.v6i13.18133. Disponível em: https://periodicos2.uesb.br/reed/article/view/18133. Acesso em: 20 maio. 2026.

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Artigos