Chamada de publicação para o Dossiê temático: Formação docente no horizonte pós-ocidental: pesquisa (auto)biográfica e experiências na produção do conhecimento
A formação de professores constitui-se historicamente organizada com suporte em matrizes epistemológicas eurocentradas, universalizantes e normativas, que tendem a dissociar teoria e experiência, conhecimento e vida, saber científico e saber situado e, ainda, os saberes científicos, filosóficos e artísticos. Em expressas circunstâncias, sugere- se uma indagação central: que outros modos de produzir conhecimento e formar docentes são suscetíveis de emergir quando se desloca a ótica das epistemologias hegemônicas e se reconhece a experiência como locus legítimo de saber?
A proposição deste dossiê foi edificada mediante o entendimento de que a formação docente conforma uma seara perpassada por disputas epistêmicas, políticas e narrativas. Questiona-se, em particular, o predomínio de modelos formativos baseados em racionalidade técnica, fragmentação curricular, padronização de competências e neutralização das dimensões históricas, sociais, identitárias, éticas e estéticas do trabalho docente, visto que tais perspectivas, quando privilegiam referenciais universalizantes, tendem a invisibilizar saberes produzidos em contextos locais, experiências marcadas por desigualdades estruturais e trajetórias atravessadas por questões de gênero, raça, classe e/ou regionalidade.
Com arrimo nessas conjecturas, identificam-se nas abordagens pós-ocidentais aportes teóricos, epistemológicos, éticos, estéticos e políticos que se propõem tensionar a colonialidade na pesquisa educacional, mas, também, as formas de produção do conhecimento em contextos diversos daqueles percebidos pelo discurso da modernidade como o centro. Assim, mais do que propor a inclusão desta temática na senda da formação docente, esta proposta visa à afirmação de uma mudança de perspectiva epistemológica, mediante o reconhecimento de que os processos de formação docente também são espaços de produção de conhecimento situado, mediados por memórias, narrativas, conflitos e resistências.
Este dossiê articula, portanto, decolonialidade e narrativas autobiográficas como uma opção epistemológica – e não apenas metodológica. As narrativas (auto)biográficas, as cartas pedagógicas, os memoriais formativos, os diários de formação e outras escritas de si são compreendidos aqui como práticas de conhecimento que produzem interpretações críticas sobre a docência, desestabilizam discursos hegemônicos, mobilizam uma racionalidade sensível e (re)afirmam a experiência como dimensão constitutiva do saber docente, visto que, ao se narrar, o professor ultrapassa o simples relato de fatos, constrói sentidos, reconstrói trajetórias e inscreve-se como sujeito epistêmico.
O dossiê intenta, com efeito, reunir ensaios teóricos críticos, pesquisas qualitativas com densidade analítica e artigos teoricamente ancorados que problematizem a formação inicial e continuada de professores em distintos níveis e modalidades de ensino. São de interesse, neste passo, particularmente, trabalhos que:
- tematizem criticamente os limites das perspectivas tradicionais de formação docente;
- problematizem o debate pós ocidental em seus limites epistemológicos (pós- colonialismo, decolonialidade, as epistemologias do sul, os estudos sobre o Sul global, contracolonialidade, anti-colonialidade, interculturalidade crítica e outras formas emergentes de crítica, tensionamento e ruptura com a noção de ocidente como centro)
- articulem os horizontes de discurso pós-ocidentais e processos formativos como projeto epistemopolítico;
- compreendam as narrativas como produção de conhecimento e não somente como “técnicas de produção de dados”;
- explorem práticas pedagógicas insurgentes enraizadas em contextos escolares, universitários, populares;
- evidenciem o modo como gênero, raça, classe e localização geográfica perpassam as trajetórias docentes; e
- tensionem o lugar do debate ocidental na pesquisa (auto)biográfica e no discurso sobre a experiência.
A guisa de síntese, este dossiê inscreve-se no esforço de tensionar as bases epistemológicas que historicamente sustentaram a formação docente sob o signo da universalidade abstrata e do privilégio de matrizes ocidentais, (re)afirmando a pesquisa (auto)biográfica como abordagem que incita o deslocamento de hierarquias epistêmicas e reconfigura os modos de compreender a docência. Nesse horizonte, a escrita de si, a memória e a experiência apresentam-se como práticas epistemopolíticas que desestabilizam regimes hegemônicos de verdade e contribuem para a construção de uma ciência plural, comprometida com a justiça epistêmica e social, enquanto os docentes são reconhecidos como sujeitos do conhecimento e os processos formativos como espaços pulsantes de produção de sentidos e transformação.
Organização: Dr. Rodrigo Matos-de-Souza (UNB), Dra. Luciana Rodrigues Leite de Souza (UECE), Dra. Gloria Clemencia Valencia González (Universidad Simón Bolívar) e Dra. Inês Ferreira de Souza Bragança (UNICAMP)
Chamada aberta de abril a junho de 2026.