O trabalho da metamorfose perpétua: o corpo histérico em Clarice Lispector
DOI:
https://doi.org/10.22481/folio.v17i1.18728Palavras-chave:
Clarice Lispector, Histeria, Corpo, Êxtase, Metamorfose, ImagemResumo
Este artigo, de perfil ensaístico, propõe outro modo de pensar os processos de desestabilização do corpo e da linguagem em alguns livros e personagens de Clarice Lispector a partir do corpo indomável e plástico que roubou a cena no contexto daquela que ficou conhecida, sobretudo no século XIX, como uma questão do feminino por excelência: a histeria. Os estudos de Freud na Salpêtrière, em Paris, junto ao neurologista Jean-Martin Charcot, revolucionaram a percepção sobre a histeria ao entender que suas causas seriam psíquicas, não físicas. “As histéricas sofriam de lembranças”, escreveu Freud, e seu corpo “endemoniado”, inapreensível, a se debater no ritmo de suas “simultaneidades contraditórias” restou como um corpo aberto, em metamorfose constante, no qual o embate de desejo, dor, violência e morte produziu uma inquietante “fascinação visual, fascinação feminina”. Essa mesma fascinação parece atravessar as personagens selvagens, enigmáticas, inacabadas de Clarice invadidas por uma alegria difícil, submersas em um inferno de dor e prazer diante da experiência retorcida, isto é, histérica, que é tocar a morte para intensificar a vida. Neste sentido, a obra de Clarice talvez possa ser vista como um singular elogio do impulso histérico na arte em tudo que este último tem de subversivo, instável e extático, implodindo por dentro os gêneros e as categorias estéticas e apontando para o que a personagem-fluxo, ainda sem nome, de Água Viva, chamou uma “convulsão da linguagem”, ou seja, o seu estranhamento (que é também o seu assombro) permanente e radical.
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