Mensurar, extrair, arquivar: a maquinização do desejo no conto “O campeonato”, de Rubem Fonseca
DOI :
https://doi.org/10.22481/folio.v17i1.19133Mots-clés :
Rubem Fonseca, Maquinização, Desejo, Corpo, Arquivo, BiopolíticaRésumé
Este artigo analisa a maquinização do desejo no conto “O campeonato”, de Rubem Fonseca, publicado em Feliz Ano Novo (1975). Afastando-se das leituras que privilegiam a obscenidade ou a violência como chaves interpretativas, sustenta que a narrativa encena a inscrição da sexualidade num regime técnico de mensuração — dispositivo no qual a experiência erótica só adquire inteligibilidade quando previamente quantificada. Nessa lógica, o prazer deixa de constituir experiência para tornar-se desempenho aferível, ao passo que o corpo é reconfigurado como suporte normativo. Tal maquinaria opera mediante a tradução sistemática de qualidades em quantidades, instaurando uma economia na qual a visibilidade integral do corpo coincide com sua exaustão enquanto campo de indeterminação. Mobilizando um aparato teórico ancorado na crítica da razão técnica e na biopolítica, argumenta-se que a narrativa configura uma forma de vida em que a subjetividade é progressivamente atravessada por operações de cálculo e armazenamento. Conclui-se que a sexualidade, submetida a procedimentos de verificação e validação, perde sua dimensão relacional, reduzindo-se a uma sequência de ocorrências aferíveis — efeito imanente de uma racionalidade que torna irrelevante aquilo que não pode ser inscrito no arquivo.
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© Evandro Carlos Salermo, Luciano Rodrigues Santos 2026

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