Uma vasta ferida em forma de nação: tradução, trauma e testemunho da violência de estado nas vozes dissidentes em Cantoras, de Caro de Robertis
DOI:
https://doi.org/10.22481/lnostra.v13i1.17131Palabras clave:
Teor testemunhal, Ficção, Tradução, Violência de Estado, CantorasResumen
Na presente reflexão, propomos uma discussão em torno do romance Cantoras, de Caro de Robertis (2019a), e da sua tradução para o português, elaborada por Natália Borges Polesso, a fim de investigar o teor testemunhal presente na narrativa ficcional e suas transformações por meio da reescrita tradutória. O pano de fundo do romance, escrito e publicado em língua inglesa, é a realidade traumática de repressão da ditadura militar no Uruguai, sobretudo no que concerne à violência contra mulheres cujas sexualidades divergem da heteronormatividade. Argumentamos que Cantoras e sua tradução para o português se apresentam como escritas do trauma e espaços de resistência contra o esquecimento, diante da violência heteronormativa de Estado. Amparamos a discussão nas noções de testemunho e teor testemunhal, em seu tensionado vínculo com a ficção, como abordam Derrida (2015), Penna (2019), Seligmann-Silva (2003b), Ginzburg (2001) e Sarmento-Pantoja (2021). Enredamos essas noções à concepção de tradução como reescrita que transforma o “original”, ao conferir-lhe sobrevida (Derrida, 2011). Na leitura comparativa do romance e da sua reescrita em língua portuguesa, foi possível observar o teor testemunhal urdido à ficção e como ele sobrevive transformado na tradução, testemunhando, na narrativa em outra língua, o trauma da repressão contra mulheres lésbicas.
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