Carta da Editoria: a fólio em quatro línguas, compromisso com o multilateralismo
O capinar é solitário, a colheita é que é comum: é a lição recebida por Riobaldo de seu compadre Quelemém, em Grande Sertão: veredas.
Noticiamos, por esses dias, a ascensão da fólio à qualificação A3 na avaliação quadrienal da Capes! Foi um reconhecimento importante do trabalho de anos, da confiança de autores e pareceristas, da dedicação de toda a equipe dos Periódicos UESB. Esse salto nos impulsionou a repensar cada detalhe da revista e o que apresentamos agora é o resultado concreto desse esforço.
Um trabalho coletivo solitário
O trabalho acadêmico muitas vezes é sozinho: a escrita, a tradução, a revisão… antes de mais nada – a leitura. São atos quase sempre solitários. Na produção de uma revista, como nos simpósios, é que banqueteamos o conhecimento partilhado.
Envolvendo conselhos, correções, sugestões e muito esforço de colegas e alunos, o trabalho coletivo buscou assegurar que cada diretriz, cada termo técnico, cada orientação formal e mesmo cada metáfora ressoassem uma coesão acadêmica e de princípios que reafirme e renove uma coerência ética e contextual da fólio em seus quase 18 anos de existência.
Por que (essas) quatro línguas?
A plataforma Open Journal Systems (OJS), que utilizamos, admite a inclusão de apenas cinco idiomas de origem européia. Dentre as opções que tínhamos, optamos por esses quatro não por acaso, mas por uma decisão política e epistêmica clara.
Português, inglês, espanhol e francês são, reconhecidamente, as principais línguas coloniais que moldaram boa parte do mundo contemporâneo – com todas as violências e contradições que essa herança carrega. No entanto, são também as línguas que hoje permitem a comunicação entre continentes: chegam a todos os países da América, a quase todas as nações da África e a vastas regiões da Ásia e Oceania.
Com efeito, essa escolha significa abrir a fólio para um diálogo abrangente, multilíngue e, sobretudo, multilateral – um diálogo em que diferentes tradições de pensamento possam se encontrar sem que uma língua única imponha sua centralidade, sem nem mesmo que a península-berço dessas quatro línguas seja o mediador privilegiado do conhecimento que produzimos e publicamos.
Sabemos que o horizonte é muito mais largo.
Ainda que por ora estejamos limitados a quatro línguas de origem europeia, por meio delas podemos falar com quase o mundo inteiro, ou (ao menos) metade dele. Queremos um dia poder acolher línguas orientais, indígenas, africanas nativas. Mas damos este passo com a consciência de que a internacionalização de uma revista não pode ser apenas um gesto de inserção em rankings, mas sim um ato de construção de pontes.
Um convite final
O trabalho não está finalizado. Talvez nunca esteja, porque tudo é fluxo e movimento. Ainda precisamos traduzir páginas de acesso interno, diretrizes para avaliadores, regras de formatação e a própria NBR que orientará os autores estrangeiros a formatarem seus dentro das normas técnicas brasileiras.
Neste momento, convidamos cada um de vocês a explorar a nova página da revista, a reler nossas diretrizes, a navegar pelas seções agora integralmente disponíveis em quatro idiomas.
Pedimos que todos os deslizes nos sejam comunicados e que todas as melhorias e críticas nos sejam apontadas!
Que este espaço renovado continue sendo um lugar de encontro, debate e rigor acadêmico — feito por muitas mãos, sustentado pela confiança de quem escreve, lê e revisa.
Com gratidão e a certeza de que o melhor ainda está por vir,
Ricardo Martins Valle
Fernanda de Castro Modl
fólio – revista de letras
Abril de 2026